segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Através do espelho

Às vezes, não me reconheço quando me olho no espelho. Não sei se enxergo o meu reflexo ou se vejo através de mim. Todas as modificações internas que sofri no decorrer dos anos são invisíveis neste reflexo, então reflito à partir do que vejo, tomando os meus traços físicos como referencial para entender a metamorfose interna que sofri. Noto que estou mais alta, mais madura, mas seria incapaz de adivinhar a idade que tenho caso eu houvesse esquecido. O que vemos e o que somos é tão paradoxal que, muitas das vezes, não sentimos ter a idade que aparentamos. O tempo é cruel e não nos espera, ele não nos dá a mão para que juntos possamos caminhar.  Minha imagem não condiz com o que penso de mim. Vejo-me tão mais velha em alguns aspectos e tão mais nova, mais ingênua em outros. A bondade que tenho transborda no brilho do meu olhar, e este sorriso condiz exatamente com a satisfação de ser quem eu me tornei, mas fora isso nada mais eu posso notar. 
Talvez, este seja o nosso mecanismo de defesa. Deste modo, tornamo-nos imunes aos olhares alheios, pois não há como descobrir o que se passa por trás do sorriso que esboçamos diariamente ou o que se esconde atrás deste disfarce no olhar que trazemos conosco. As aparências não só enganam como ocultam. No espelho, reconhecemo-nos, mas nem sempre nos aceitamos. O espelho faz-nos esquecer o que somos por dentro e focaliza a nossa atenção no que tem "por fora". Mas, talvez estejamos olhando pelo espelho errado. Devemos parar de refletir o rosto para revelar a alma. 

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